A vida é o maior dos espetáculos da Terra
Sara Gruen
Água para Elefantes
Prólogo
“Não falo muito sobre esses dias. Nunca falei. Eu tinha medo de deixar escapar alguma coisa. Sabia como era importante guarda o segredo dela e de fato o guardei – pelo resto de sua vida.E m 70 anos, nunca revelei a ninguém.”
Jacob Jankowski tem 93 ano, vive em uma casa de repouso e nunca fala de seu passado. A te que um circo chega à cidade, despertando as recordações de sua juventude.
São lembranças de um mundo habitadas por aberrações e palhaços, em que vigoram leis vigorosas e até mesmo irracionais. U ma atmosfera de encanto, repleta de maravilhas e paixões, mas que também abriga dor e ódio. P ara o jovem Jacob, esse universo é tento a sua salvação quanto o seu calvário.
Queria dizer o que disse, e disse o que eu queria dizer...
O elefante é cem por cento fiel!
Theodor Seuss Geisel, , Tonho choca o ovo, 1940.
Restaram
apenas três pessoas sobre o toldo vermelho e branco da espelunca: Grady, eu e
cozinheiro. Grady eu nos sentamos a uma mesa de madeira
muito antiga e gasta, cada um diante de um hanbúrguer num prato de lata
amassado. O cozinheiro estava atrás do balcão,
raspando a grelha com uma espátula. Ele já tinha
desligado a frigideira havia algum tempo, mas o cheiro de gordura impregnava o
ar.
O
resto do pátio – que pouco tempo antes transbordava de gente – estaria vazio
não fosse por um punhado empregados e um pequeno grupo de homens guardando para
ir à tenda da dança do ventre. Eles lançavam olhares
nervosos de um lado para o outro, usavam chapéus enterrados na cabeça e tinham
as mãos enfiadas nos bolsos. Não ficariam desapontados:
em algum lugar lá no fundo da tenda Bárbara e seus encantos abundantes os
esperavam.
Os
moradores da cidade – os caipiras como tio Al chamava – tinham atravessado a
tenda das jaulas e chegado á grande
tenda, que pulsava ao som de uma música frenética. O
volume com que abanda executava seu repertório era ensurdecedor, como de
costume. Eu sabia o programa de cor – nesse exato
momento, a última parte do Grande Desfile saía, e Lottie, a trapezista,
começava a subir em seu trapézio, no picadeiro central.
Olhei
exatamente para Grady, tentando entender o que ele estava falando. Ele
deu uma olhada ao redor e então se aproximou.
― Além disso ― disse Grady, me olhando nos olhos ―,
acho que você tem muito a perder nesse momento. ― E, pra dar mais ênfase ao que dizia, levantou as
sobrancelhas. Meu coração disparou.
Ouviu-se
uma explosão de aplausos estrondosos na grande tenda e a banda emendou a valsa
de Gounod. Voltei-me instintivamente para a tenda das jaulas porque
essa era a deixa para o número do elefante. A essa altura,
Marlena ou estaria se preparando para montar ou já estaria sentada na cabeça de
Rosie.
― Tenho
que ir ―
falei.
― Sente aí ― retrucou Grady. ―
Coma. Se você esta pensando em ir
embora, pode ser que demore até encontrar o que comer.
Nesse momento a música guinchou e parou. Ouviu-se a
terrível colisão de matais, sopro e percussão ―
os tambores e flautins produziram uma cacofonia, uma tuba emitiu um ruído
grosseiro e o som oco de um címbalo tremulou na grande tenda, oscilou sobre
nossas cabeças e se desfez no espaço .
Grandy
ficou paralisado e encolhido diante de seu hambúrguer, com os dedos mindinhos
esticados e os lábios muito abertos.
Olhei de um lado para o
outro. Ninguém
mexia um músculo se quer ― todos os olhos se
dirigiram à grande tenda. Alguns fiapos de feno rodopiavam preguiçosamente
pelo chão.
― O que foi isso? O que está acontecendo? ― perguntei.
― Psiu! ― silvou
Grady.
A banda
atacou de novo, dessa vez com “Stars and Stripes Forever.”
― Meu Deus! Ah, que merda! ― Grady jogou a comida na mesa e se levantou de um
salto, derrubando o banco.
― O
que foi? ―
berrei pois ele já corria longe de mim.
― A
Macha Fatídica! ― gritou ele, virando a cabeça para trás.
Olhei
nervoso ao cozinheiro, que estava se livrando do avental.
― De
que diabos ele está falando?
― Da
Macha Fatídica ― disse ele, lutando para tirar o avental pela cabeça. ― É
sinal de que está acontecendo algo errado. Muito errado.
― Como
o quê
― Fogo
na grande tenda, estouro de animais, qualquer coisa assim. Ai,
meu bom Jesus! Os pobres caipiras
provavelmente ainda não sabem de nada. ― Ele se abaixou para
passar pela porta de vaivém e se mandou.
Taos
―
os baleiros saltavam por cima dos balcões, operários saíam cambaleantes de
baixo das abas da tenda e outros empregados do circo atravessaram
precipitadamente a área. Todos os que estavam ligados ao Ciro
Benzini, o Maior Espetáculo da Terra dispararam em direção à grande tenda.
Diamond
Joe passou por mim disparada, o equivalente humano de um galope.
―Jacob são as jaulas ―
gritou ele. ―
os animais se soltaram. Corra, corra! Ele não precisava
repetir. Marlena estava naquela tenda.
Ao
me aproximar, ouvi um grande estrondo e fiquei apavorado. Não se podia chamar
aquilo de barulho. O chão estava vibrando.
Entrei
cambaleante e me deparei com um iaque ― um animal enorme, de pelos enormes,
cascos agitados, ventas vermelhas furiosas e olhos que giravam. Ele passou galopando
tão perto de mim que dei um salto para trás, rente à lona, para ser atingido
por um de seus chifres curvos. Uma hiena apavorada se
agarrava ao dorso do iaque.
A
grande barraca de balas que ficava no centro da tenda tinha sido arrastada e em
seu lugar havia um aglomerado de manchas e listras que se agitava ―
ancas, pasta, rabos e garras rugindo, berrando ou relinchando. Acima
de tudo aquilo, um urso-polar batia às cegas as patas do tamanho de uma
frigideira. Ele esbarrou em uma Ihama e ― pum! ― a derrubou. A
Ihama se estabeleceu no chão, o pescoço e as pernas com as cinco como as cinco pontas
de uma estrela. Chimpanzés berravam, balançando-se nas
cordas para se manter fora do alcance dos felinos. Uma
zebra de olhos desvairados ziguezagueou perto de mais de um leão agachado, que
deu bote, errou e se afastou, quase rastejando pelo chão.
Meus
olhos varreram a tenda desesperados, á procura de Marlena. Em
vez dela, vi um felino entrando sorrateiramente na passagem que levava à grande
tenda ―
era uma pantera, e quando seu corpo negro e ágil desapareceu no túnel de lona
eu me preparei para o ataque. Se os caipiras ainda não sabiam, estavam prestes
a descobrir. Demorou alguns segundos, mas então aconteceu
―
um grito seguido de outro, e depois de outro, e então todo o circo explodiu num
barulho estrondoso de corpos tentando abrir caminho entre outros corpos e sair
da arquibancada. A banda guinchou e parou
novamente, mas dessa vez permaneceu em silêncio. Fechei
os olhos: deus, por favor, faça com que eles saiam pelos fundos. Não
dixe eles passar por mim.
Tornei
a abrir os olhos e esquadrinhei a tenda das jaulas, louco para encontrá-la. Pelo
amor de Deus, será que é tão fácil encontrar uma garota em um elefante?
Quando
vislumbrei as lantejoulas cor-de-rosa, quase chorei de alívio ―
pode ser que eu tenha chorado. Não lembro.
Ela estava de pé do outro
lado, encostada na parede, calma como um dia de verão. As lantejoulas brilhavam
como diamantes líquidos, um farol cintilante entre as peles coloridas dos
animais. Ela também me viu e manteve
meu olhar preso ao seu pelo que me pareceu uma eternidade. Ela estava tranqüila,
lânguida. Até sorria. Comecei a abrir caminho na direção dela, mais
algo na sua expressão me paralisou.
Aquele
filho da puta estava parado de costa para ela, com a cara vermelha, berrando,
agitando os braços e balançando a bengala de ponteira de prata. A
cartola de seda estava jogada no feno ao lado dele.
Ela
procurava alguma coisa. Um girafa passou entre nós ― o
pescoço comprido se balançando graciosamente, apesar do pânico. Quando
a girafa saiu da frente, vi que ela pegara uma barra de ferro e segurava sem
firmeza, com uma ponta pousada no chão de terra batida. Ela
me olhou de novo, estupefata. E então seu olhar se voltou
para a cabeça dele.
― Ai,
meu Deus! ― murmurei, compreendendo de repente. Deu um passo
cambaleante à frente e gritei, mesmo sem qualquer chance de ser ouvido. ― Não faça isso! Não faça isso!
Ela
levantou a barra bem alto e abaixou, rachando a cabeça dele como uma melancia. O crânio
se abriu, os olhos se esbugalharam e a boca ficou paralisada um “O”. ele caiu primeiro
de joelhos e depois para a frente, no feno.
Eu estava
atônito demais para me mexer, mesmo quando um jovem orangotango passou seus braços
elásticos em volta das minhas pernas.
Faz
muito, muito tempo. Mas ainda me assombra.
Não
falo muito sobre esses dias. Nunca falei. Não
sei por quê ― trabalhei
em circos por quase sete anos, e se isso não é assunto para conversas, não sei o
que mais pode ser.
Na verdade,
eu sei por que eu não falo sobre isso: nunca confiei em mim. Eu tinha
medo de deixar escapar alguma coisa. Sabia como era importante guarda
o segredo dela e de fato o guardei ― pelo
resto da sua vida e depois.
Em 70
anos, nunca me revelei a ninguém.

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