31.3.14

Livro: Water for Elephants - Prólogo

A vida é o maior dos espetáculos da Terra
Sara Gruen
Água para Elefantes 


Prólogo
    Não falo muito sobre esses diasNunca falei. Eu tinha medo de deixar escapar alguma coisa. Sabia como era importante guarda o segredo dela e de fato o guardei – pelo resto de sua vida.E m 70 anos, nunca revelei a ninguém.”

        Jacob Jankowski tem 93 ano, vive em uma casa de repouso e nunca fala de seu passado. A te que um circo chega à cidade, despertando as recordações de sua juventude.

      São lembranças de um mundo habitadas por aberrações e palhaços, em que vigoram leis vigorosas e até mesmo irracionais. ma atmosfera de encanto, repleta de maravilhas e paixões, mas que também abriga dor e ódio. P ara o jovem Jacob, esse universo é tento a sua salvação quanto o seu calvário.

Queria dizer o que disse, e disse o que eu queria dizer...
O elefante é cem por cento fiel!
Theodor Seuss Geisel, , Tonho choca o ovo, 1940.
            Restaram apenas três pessoas sobre o toldo vermelho e branco da espelunca: Grady, eu e cozinheiro. Grady eu nos sentamos a uma mesa de madeira muito antiga e gasta, cada um diante de um hanbúrguer num prato de lata amassado. O cozinheiro estava atrás do balcão, raspando a grelha com uma espátula. Ele já tinha desligado a frigideira havia algum tempo, mas o cheiro de gordura impregnava o ar.
            O resto do pátio – que pouco tempo antes transbordava de gente – estaria vazio não fosse por um punhado empregados e um pequeno grupo de homens guardando para ir à tenda da dança do ventre. Eles lançavam olhares nervosos de um lado para o outro, usavam chapéus enterrados na cabeça e tinham as mãos enfiadas nos bolsos. Não ficariam desapontados: em algum lugar lá no fundo da tenda Bárbara e seus encantos abundantes os esperavam.
                               Os moradores da cidade – os caipiras como tio Al chamava – tinham atravessado a tenda das jaulas  e chegado á grande tenda, que pulsava ao som de uma música frenética. O volume com que abanda executava seu repertório era ensurdecedor, como de costume. Eu sabia o programa de cor – nesse exato momento, a última parte do Grande Desfile saía, e Lottie, a trapezista, começava a subir em seu trapézio, no picadeiro central.
                               Olhei exatamente para Grady, tentando entender o que ele estava falando. Ele deu uma olhada ao redor e então se aproximou.
                        ― Além  disso disse Grady, me olhando nos olhos , acho que você tem muito a perder nesse momento. E,  pra dar mais ênfase ao que dizia, levantou as sobrancelhas. Meu coração disparou.
                                                 Ouviu-se uma explosão de aplausos estrondosos na grande tenda e a banda emendou a valsa de Gounod. Voltei-me instintivamente para a tenda das jaulas porque essa era a deixa para o número do elefante. A essa altura, Marlena ou estaria se preparando para montar ou já estaria sentada na cabeça de Rosie.
                                  ― Tenho que ir falei.
                        ― Sente aí retrucou Grady. Coma. Se você esta pensando em ir embora, pode ser que demore até encontrar o que comer.
                                Nesse momento a música guinchou e parou. Ouviu-se a terrível colisão de matais, sopro e percussão os tambores e flautins produziram uma cacofonia, uma tuba emitiu um ruído grosseiro e o som oco de um címbalo tremulou na grande tenda, oscilou sobre nossas cabeças  e se desfez no espaço .
                               Grandy ficou paralisado e encolhido diante de seu hambúrguer, com os dedos mindinhos esticados e os lábios muito abertos.
                                Olhei de um lado para o outro. Ninguém mexia um músculo se quer todos os olhos se dirigiram à grande tenda. Alguns fiapos de feno rodopiavam preguiçosamente pelo chão.
                               O que foi isso? O que está acontecendo? perguntei.
                                       Psiu! silvou Grady.
                               A banda atacou de novo, dessa vez com “Stars and Stripes Forever.”
                               Meu Deus! Ah, que merda! Grady jogou a comida na mesa e se levantou de um salto, derrubando o banco.
                               O que foi? berrei pois ele já corria longe de mim.
                               A Macha Fatídica! gritou ele, virando a cabeça para trás.
                               Olhei nervoso ao cozinheiro, que estava se livrando do avental.
                               De que diabos ele está falando?
                               Da Macha Fatídica disse ele, lutando para tirar o avental pela cabeça. É sinal de que está acontecendo algo errado. Muito errado.

                         ― Como o quê
                               Fogo na grande tenda, estouro de animais, qualquer coisa assim. Ai, meu bom Jesus! Os pobres caipiras provavelmente ainda não sabem de nada. Ele se abaixou para passar pela porta  de vaivém e se mandou.
                               Taos os baleiros saltavam por cima dos balcões, operários saíam cambaleantes de baixo das abas da tenda e outros empregados do circo atravessaram precipitadamente a área. Todos os que estavam ligados ao Ciro Benzini, o Maior Espetáculo da Terra dispararam em direção à grande tenda.
                               Diamond Joe passou por mim disparada, o equivalente humano de um galope.
                                            Jacob são as jaulas gritou ele. os animais se soltaram. Corra, corra!  Ele não precisava repetir. Marlena estava naquela tenda.
                               Ao me aproximar, ouvi um grande estrondo e fiquei apavorado. Não se podia chamar aquilo de barulho. O chão estava vibrando.
                               Entrei cambaleante e me deparei com um iaque um animal enorme, de pelos enormes, cascos agitados, ventas vermelhas furiosas e olhos que giravam.  Ele passou galopando tão perto de mim que dei um salto para trás, rente à lona, para ser atingido por um de seus chifres curvos. Uma hiena apavorada se agarrava ao dorso do iaque.
            A grande barraca de balas que ficava no centro da tenda tinha sido arrastada e em seu lugar havia um aglomerado de manchas e listras que se agitava ancas, pasta, rabos e garras rugindo, berrando ou relinchando. Acima de tudo aquilo, um urso-polar batia às cegas as patas do tamanho de uma frigideira. Ele esbarrou em uma Ihama e pum! a derrubou. A Ihama se estabeleceu no chão, o pescoço e as pernas com as cinco como as cinco pontas de uma estrela. Chimpanzés berravam, balançando-se nas cordas para se manter fora do alcance dos felinos. Uma zebra de olhos desvairados ziguezagueou perto de mais de um leão agachado, que deu bote, errou e se afastou, quase rastejando pelo chão.
                               Meus olhos varreram a tenda desesperados, á procura de Marlena. Em vez dela, vi um felino entrando sorrateiramente na passagem que levava à grande tenda era uma pantera, e quando seu corpo negro e ágil desapareceu no túnel de lona eu me preparei para o ataque. Se os caipiras ainda não sabiam, estavam prestes a descobrir. Demorou alguns segundos, mas então aconteceu um grito seguido de outro, e depois de outro, e então todo o circo explodiu num barulho estrondoso de corpos tentando abrir caminho entre outros corpos e sair da arquibancada. A banda guinchou e parou novamente, mas dessa vez permaneceu em silêncio. Fechei os olhos: deus, por favor, faça com que eles saiam pelos fundos. Não dixe eles passar por mim.
       Tornei a abrir os olhos e esquadrinhei a tenda das jaulas, louco para encontrá-la. Pelo amor de Deus, será que é tão fácil encontrar uma garota em um elefante?
                               Quando vislumbrei as lantejoulas cor-de-rosa, quase chorei de alívio pode ser que eu tenha chorado. Não lembro.
          Ela estava de pé do outro lado, encostada na parede, calma como um dia de verão. As lantejoulas brilhavam como diamantes líquidos, um farol cintilante entre as peles coloridas dos animais. Ela também me viu e manteve meu olhar preso ao seu pelo que me pareceu uma eternidade. Ela estava tranqüila, lânguida. Até sorria. Comecei a abrir caminho na direção dela, mais algo na sua expressão me paralisou.
           Aquele filho da puta estava parado de costa para ela, com a cara vermelha, berrando, agitando os braços e balançando a bengala de ponteira de prata. A cartola de seda estava jogada no feno ao lado dele.
                               Ela procurava alguma coisa. Um girafa passou entre nós o pescoço comprido se balançando graciosamente, apesar do pânico. Quando a girafa saiu da frente, vi que ela pegara uma barra de ferro e segurava sem firmeza, com uma ponta pousada no chão de terra batida. Ela me olhou de novo, estupefata. E então seu olhar se voltou para a cabeça dele.
                                Ai, meu Deus! murmurei, compreendendo de repente. Deu um passo cambaleante à frente e gritei, mesmo sem qualquer chance de ser ouvido. Não faça isso! Não faça isso!
                                Ela levantou a barra bem alto e abaixou, rachando a cabeça dele como uma melancia. O crânio se abriu, os olhos se esbugalharam e a boca ficou paralisada um “O”. ele caiu primeiro de joelhos  e depois para a frente, no feno.
                                Eu estava atônito demais para me mexer, mesmo quando um jovem orangotango passou seus braços elásticos em volta das minhas pernas.
                                Faz muito, muito tempo. Mas ainda me assombra.
                                Não falo muito sobre esses dias. Nunca falei. Não sei por quê trabalhei em circos por quase sete anos, e se isso não é assunto para conversas, não sei o que mais pode ser.
                                Na verdade, eu sei por que eu não falo sobre isso: nunca confiei em mim. Eu tinha medo de deixar escapar alguma coisa. Sabia como era importante guarda o segredo dela  e de fato o guardei pelo resto da sua vida e depois.
                                Em 70 anos, nunca me revelei a ninguém.


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