Os irmãos novaiorquinos Josh e Benny Safdie libertaram de vez a vedeta de "Twilight" da imagem de galã romântico, com o seu papel neste "thriller" urbano. Eurico de Barros dá-lhe quatro estrelas.
A determinada altura de “Good Time”, o novo filme dos irmãos Benny e Josh Safdie (“Vão-me Buscar Alecrim”), Robert Pattinson, que interpreta Connie Nikas, um a saltante de bancos novaiorquino, daqueles que ficam pelos bairros periféricos em que nasceram, tinge o cabelo de amarelo para que seja mais difícil a polícia reconhecê-lo, depois de um assalto ao banco que fez na companhia do seu irmão Nick (Benny Safdie), que tem uma deficiência mental e que a polícia capturou durante a fuga. Esse ato de pintar o cabelo resume e simboliza, decerto inadvertidamente, o esforço que Pattinson tem vindo a fazer nos últimos anos para se libertar por completo da imagem de jovem galã romântico que lhe ficou colada pela sua participação na saga fantástica para adolescentes “Twilight”, baseada nos “best-sellers” de Stephenie Meyer, e ficar irreconhecível perante a sua legião
de fãs.
Pela primeira vez, e apesar de entretanto já ter feito filmes sob a direção de cineastas como David Cronenberg (dois), James Gray, Werner Herzog e Anton Corbijn, Robert Pattinson consegue-o. O seu Connie está, em tudo, a anos-luz do Edward Cullen dos “Twilight”, convencendo-nos finalmente que há ali um ator para lá da carinha laroca e da imagem glamourosa controlada pelos estúdios. E esse ator revelou-se nos antípodas de Hollywood, no ecossistema do cinema “indie” de Nova Iorque em que os Safdie nasceram e têm prosperado. Houve quem opinasse que só mesmo Martin Scorsese poderia valer a Pattinson, mas não foi preciso. Os manos Safdie e as impiedosas “mean streets” novaiorquinas em que “Good Time” se passa encarregaram-se disso.
“Good Time” é um “thriller” urbano passado numa só noite e rodado em estilo guerrilheiro pelos Safdie, e quase podia ser uma farsa, não fosse o desespero que deita por todos os poros e se acumula a olhos vistos. O dinheiro que Connie e Nick roubaram ficou inutilizado depois da explosão de uma bomba de tinta que manchou as notas, e a eles, de vermelho; a antiga namorada (Jennifer Jason Leigh, num papel toca-e-foge) a quem ele recorre pedindo dinheiro emprestado para a fiança do irmão, vê o cartão de crédito ser cancelado pela mãe; a garrafa cheia de droga que quer vender é extraviada num parque de diversões; e a tentativa de tirar o irmão do hospital onde está internado sob vigilância policial, depois de ter sido espancado por outros detidos quando sob custódia, resulta – mas só que com a pessoa errada. É como se tudo o que Connie faça esteja irremediavelmente condenado a falhar, e cada ação sua desencadeie a reação oposta.
A filiação de “Good Time”, asperamente fotografado em 35 mm por Sean Price Williams, é o cinema independente e de série B novaiorquino, dos filmes mais realistas aos de “exploitation”. Há aqui Cassavetes mas também Larry Cohen e o Abel Ferrara dos inícios. Os Safdie fizeram uma fita encardida, crua e berrante, nervosa e insone, que progride a toque de caixa e em contra-relógio, passada em grande parte de noite, iluminada a néon e povoada por gente derrotada ou deixada por conta, entre McJobs e a pequena marginalidade, pulsando ao ritmo da banda sonora cheia de sintetizadores muito “seventies” de Daniel Lopatin/Oneohtrix Point Never e Iggy Pop. No meio de todo este frenesim, Connie anda de Herodes para Pilatos, sem perceber que não pode salvar o indefeso Nick, e muito menos a si próprio. Decididamente, ao interpretar Connie, o predador citadino de meia tigela, Robert Pattinson acabou de vez com Edward, o charmoso vampiro romântico.

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